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As Capacidades e Missões dos Navios Hidrográficos da Marinha Portuguesa (Síntese )

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A Marinha Portuguesa dispõe de quatro navios hidrográficos, dois de capacidade costeira, classe "Andrómeda", e dois de capacidade oceânica, classe "D.Carlos I".

Classe "Andrómeda"

Os navios desta classe, o NRP "Andrómeda" e o NRP "Auriga", foram construídos no Arsenal do Alfeite, tendo sido lançados à água em 1985 e 1987, respectivamente; têm um comprimento de 31 m, um deslocamento de 245t, e são guarnecidos por 13 elementos.

Esta classe foi concebida para actividades hidrográficas e oceanográficas em estuários e zonas costeiras; os navios têm cumprido as variadas missões que lhe têm sido atribuídas, demonstrando uma elevada versatilidade, e sustentando grande parte da actividade oceanográfica ao largo das costas de Portugal Continental e do arquipélago da Madeira.

No âmbito da capacidade hidrográfica e oceanográfica, possuem:

  • Sondas de feixes simples, para hidrografia;
  • Guinchos para levantamentos hidrológicos e geologia marinha;
  • Plataforma amovível para operação de diverso equipamento científico (e.g., ROV, sísmica e sonar lateral);
  • Grua hidráulica e pórtico, para a execução de diversas operações oceanográficas.

Classe "D. Carlos I"

A classe "D. Carlos I" é constituída por dois navios, de capacidade oceânica: o NRP "D. Carlos I" e o NRP "Almirante Gago Coutinho".

Os navios foram construídos na década de oitenta nos Estados Unidos, tendo sido empregues em acções de vigilância submarina durante a Guerra Fria. Foram posteriormente cedidos a Portugal: o NRP "D. Carlos I" em 1997 e o NRP "Almirante Gago Coutinho" em 1999. A Marinha Portuguesa converteu-os em navios hidrográficos, num projecto ambicioso que só foi possível executar graças uma elevada capacidade e proficiência nas áreas oficinal, técnica e científica. Com a nova configuração, e apetrechados com modernos equipamentos científicos, iniciaram a sua actividade hidrográfica em 2004, o NRP "D.Carlos I", e em 2007, o NRP "Almirante Gago Coutinho".

Os navios desta classe têm um comprimento de 68m, um deslocamento 2300 t, e são guarnecidos por 34 elementos. No âmbito da capacidade hidrográfica e oceanográfica, dispõem de:

  • Sondadores multifeixe;
  • Perfilador acústico ADCP;
  • Guinchos, pórticos e gruas, para operações oceanográficas e de geologia marinha.

O NRP "Almirante Gago Coutinho" está ainda dotado de um Sub-bottom Profiler (perfilador da natureza geológica do fundo), assim como de um sistema de posicionamento dinâmico, o que lhe permite operar o ROV de grande profundidade.

Missões

As diversas missões cumpridas pelos navios hidrográficos constituem a melhor expressão das suas capacidades. O seu desempenho é também indissociável do apoio sustentado pela Marinha através das suas estruturas logísticas, operacional e técnico-científica.

A actividade operacional dos navios insere-se em quatro domínios fundamentais:

Ø  Operações navais, dando corpo à sua principal Missão: "assegurar, no âmbito da actuação específica da Marinha Portuguesa, as actividades relacionadas com as ciências e técnicas do mar, tendo em vista a sua aplicação militar". Neste âmbito, destacam-se as campanhas REA (Rapid Environmental Assessement), em que se caracteriza a situação ambiental num teatro de operações, permitindo o uso optimizado de sensores e armas em função das condições ambientais. Assinale-se também a realização de operações de localização de embarcações afundadas, como foram os casos do navio "Bolama" e, mais recentemente, de embarcações de recreio e de pesca ao largo de Peniche e da Figueira da Foz.

Ø  Projectos da responsabilidade do Instituto Hidrográfico, com a execução de levantamentos hidrográficos para actualização cartográfica e campanhas oceanográficas para monitorização ambiental; trata-se de uma actividade essencial para a segurança da navegação e o conhecimento das águas nacionais.

Ø  Apoio ao projecto de Extensão da Plataforma Continental; neste âmbito, os dois navios de capacidade oceânica levaram a cabo uma campanha assinalável, tendo ambos os navios coberto, com sondadores acústicos, uma área oceânica de 1,8 milhões de km2 (cerca de vinte vezes a área terrestre de Portugal), em 800 dias de mar[1].

Apoio à comunidade científica: executando campanhas científicas da responsabilidade de universidades e instituições civis ligadas à investigação no Mar.

Cooperação com os PALOP

A Marinha Portuguesa, através do Instituto Hidrográfico, tem cooperado com os PALOP nos domínios da hidrografia e da cartografia náutica; contudo, e salvo algumas áreas portuárias, designadamente do Arquipélago de Cabo Verde[2], a cartografia náutica destes países carece de actualização, baseando-se em informação hidrográfica adquirida entre os finais dos anos quarenta e início dos anos setenta[3]. Os navios hidrográficos de capacidade oceânica podem porém desempenhar um papel relevante na cooperação neste âmbito, proporcionando a cobertura hidrográfica em áreas oceânicas e costeiras e executando campanhas científicas, contribuindo desta forma para a segurança da navegação, o desenvolvimento económico e a correcta delimitação de espaços marítimos.

Considerações Finais

Os navios hidrográficos desempenham um papel relevante no conhecimento das águas de interesse nacional, concorrendo para a segurança da navegação, a investigação científica, e a exploração sustentada dos recursos marinhos. A actividade que desenvolvem é relevante para a afirmação e projecção de Portugal como nação marítima, e podem constituir um meio importante para a cooperação com os PALOP.



[1] Os 800 dias de mar referem-se ao período de 2005 a 2008.

[2] O Instituto Hidrográfico executou, entre 2004 e 2009, diversos levantamentos portuários neste Arquipélago, com vista à actualização da cartografia dos seus principais portos; parte desta cartografia já foi publicada.

[3] Informação adquirida graças ao trabalho notável desenvolvido pelas Missões Hidrográficas e Geodésicas Ultramarinas, entre 1946 e 1973.

 

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