IML - Instituto dos Mares da Lusofonia

IML
As Capacidades e Missões dos Navios Hidrográficos da Marinha Portuguesa

paulo_correia.jpg

Cap. Fragata Paulo Brandão Correia :: As Capacidades e Missões dos Navios Hidrográficos da Marinha Portuguesa Video

A Marinha Portuguesa dispõe de quatro navios hidrográficos, dois de capacidade costeira, classe "Andrómeda", e dois de capacidade oceânica, classe "D.Carlos I". As valências destas unidades navais têm permitido o seu empenhamento em diversas áreas de actuação desde o apoio a operações navais, em missões de cariz militar, e a execução de levantamentos hidrográficos, para actualização cartográfica, à participação em projectos científicos e de monitorização ambiental nas vastas águas oceânicas e costeiras de interesse nacional. A capacidade destes meios tornou-se ainda mais evidente no processo relativo à proposta portuguesa de alargamento da plataforma continental.

Este texto procura abordar de uma forma muito sintética as características e as capacidades dos navios, as missões que realizam, e nele é feita uma breve referência ao papel que podem assumir na cooperação com a África lusófona.

Classe "Andrómeda"

Os navios desta classe, o NRP "Andrómeda" e o NRP "Auriga", foram construídos no Arsenal do Alfeite, tendo sido lançados à água em 1985 e 1987, respectivamente; foram concebidos para actividades hidrográficas e oceanográficas em estuários e zonas costeiras, e têm um comprimento de 31 m, um deslocamento de 245 t, e uma guarnição de 13 elementos.

Estes navios têm cumprido um leque diversificado de missões, demonstrando uma elevada versatilidade e sustentando grande parte da actividade oceanográfica ao largo das costas de Portugal Continental e do arquipélago da Madeira. Assinale-se igualmente que já foram empenhados em áreas mais distantes, como em 1989, em Cabo Verde.



No âmbito das capacidades hidrográficas e oceanográficas, possuem sondas de feixes simples, para hidrografia, guinchos oceanográficos e aparelhos de força que permitem a execução de operações oceanográficas (e.g., o fundeamento e recuperação de amarrações e bóias oceanográficas), assim como a utilização de diversos equipamentos científicos. Destes, destacam-se os seguintes:

  • Sonar lateral: equipamento acústico rebocado pelo navio que permite gerar imagens de elevada resolução espacial do fundo; é utilizado com grande eficácia na detecção de objectos e de embarcações afundadas;
  • CTD (Conductivity, Temperature and Depth): equipamento oceanográfico arriado ao longo da coluna de água para medição de parâmetros físicos e químicos da água. A estrutura física onde está montado pode ainda incluir garrafas para recolha de amostras (de água) em profundidade.
  • Sísmica ligeira: equipamentos que, no caso destes navios, são rebocados e permitem uma caracterização em perfil das camadas geológicas do fundo marinho;
  • Dragas (modelo Smith Mcintyre) para recolha de sedimentos superficiais.

Classe "D. Carlos I"

A classe "D. Carlos I" é constituída por dois navios, de capacidade oceânica: o NRP "D. Carlos I" e o NRP "Almirante Gago Coutinho".

Os navios foram construídos na década de oitenta nos Estados Unidos, tendo sido empenhados em acções de vigilância submarina durante a Guerra Fria. Foram posteriormente cedidos a Portugal: o NRP "D. Carlos I" em 1997 e o NRP "Almirante Gago Coutinho" em 1999. A Marinha Portuguesa converteu-os em navios hidrográficos, num projecto ambicioso, que só foi possível executar graças uma elevada capacidade e proficiência nas áreas oficinal, técnica e científica. Com a nova configuração, e apetrechados com modernos equipamentos científicos, iniciaram a sua actividade hidrográfica em 2004, o NRP "D. Carlos I", e em 2007, o NRP "Almirante Gago Coutinho".

Os navios desta classe têm um comprimento de 68 m, um deslocamento 2300 t, e uma guarnição de 34 elementos. No âmbito das capacidades hidrográficas e oceanográficas, dispõem de espaços laboratoriais e de diversos sistemas e equipamentos, destacando-se os seguintes:

  • Sondadores multifeixe: estes sondadores emitem um feixe acústico de grande abertura angular e segundo um plano perpendicular à mediania do navio, cobrindo uma faixa do fundo e adquirindo dados de profundidade com uma elevada densidade espacial; permitem a cobertura integral do fundo e geram imagens digitais de terreno que representam de forma fiel a topografia submarina.

  • Perfilador acústico ADCP (Acoustic Doppler Current Profiler): mede a corrente, em direcção e intensidade, ao longo da coluna de água;

  • Guinchos, pórticos e gruas: possibilitam a condução de manobras oceanográficas (e.g., fundeamento e recolha de bóias e de amarrações oceanográficas), a colheita de sedimentos e a operação de diversos equipamentos como o CTD, o sonar lateral e sísmica.

O NRP "Almirante Gago Coutinho" dispõe ainda de um sistema de posicionamento dinâmico: trata-se de um sistema computorizado, ligado a diversos sensores, que, em função das forças externas exercidas sobre o navio - e.g., vento e corrente, dá automaticamente instruções aos respectivos sistemas de propulsão e de governo para que o navio se mantenha numa determinada posição, com uma proa estável. Esta valência é essencial para operações de ROV (Remotely Operated Vehicle) de grande profundidade e permite a realização de estações oceanográficas e de geologia marinha com maior segurança e eficiência.

Missões

As diversas missões cumpridas pelos navios hidrográficos constituem a melhor expressão das suas capacidades. O seu desempenho é indissociável do esforço e da proficiência das guarnições, assim como do apoio prestado pela Marinha através das suas estruturas logísticas, operacional e técnico-científica.

A actividade operacional dos navios insere-se em quatro domínios fundamentais:

Ø  Operações navais, dando corpo à sua principal Missão: "assegurar, no âmbito da actuação específica da Marinha Portuguesa, as actividades relacionadas com as ciências e técnicas do mar, tendo em vista a sua aplicação militar". Neste âmbito, destacam-se as seguintes actividades:

o   campanhas REA (Rapid Environmental Assessement): através das quais se caracteriza a situação ambiental num teatro de operações, permitindo o uso optimizado de sensores e de armas em função das condições ambientais.

o   operações de localização de embarcações afundadas: das quais constitui exemplo a detecção do navio "Bolama" e, mais recentemente, de embarcações de recreio e de pesca ao largo de Peniche e da Figueira da Foz. Nestas operações, o sonar lateral é utilizado para a detecção e localização, e o ROV para a identificação (ou validação visual).

o   Guerra de Minas: execução de levantamentos dos acessos e das aproximações aos portos que visa o conhecimento detalhado da batimetria e da natureza do fundo, permitindo, desta forma, a definição das rotas onde a probabilidade de detecção de minas é majorada. Neste âmbito, refira-se, igualmente, que, face a uma ameaça real, e havendo uma caracterização ambiental de referência da área onde incide essa ameaça, criam-se condições para que as acções de busca e de localização de minas tenham maior eficiência e eficácia.

Ø  Projectos da responsabilidade do Instituto Hidrográfico, com a execução de levantamentos hidrográficos para actualização cartográfica e campanhas oceanográficas para caracterização e monitorização ambientais:

o   Levantamentos hidrográficos para a produção e actualização da cartografia náutica: corresponde a uma actividade essencial para a segurança da navegação. Como exemplo refira-se o levantamento com sondador multifeixe realizado pelo NRP "Almirante Gago Coutinho" nas ilhas Selvagens (Arquipélago da Madeira), em 2009, onde os dados hidrográficos anteriores remontavam aos anos trinta, tendo assim mais de setenta anos. Este levantamento permitiu a produção, pelo Instituto Hidrográfico, de uma nova carta náutica das ilhas (Carta náutica 36407, Junho de 2010).

o    Campanhas para monitorização ambiental: destinadas a adquirir, numa dada área marítima, um conjunto de parâmetros ambientais, como a agitação marítima, a circulação (correntes), a maré, a temperatura e o teor de oxigénio dissolvido da água (entre outros parâmetros). Destacam-se as campanhas realizadas no âmbito do projecto MONICAN - Monitorização do Canhão da Nazaré, com o empenhamento dos navios no fundeamento de bóias multiparâmetro (bóias com capacidade de medir agitação marítima e correntes, estas últimas relativas à coluna de água, para além de um conjunto de parâmetros quer meteorológicos, quer físico-químicos da água). Este projecto revela-se importante para a região onde se encontra implantado, contribuindo para a segurança da navegação, a gestão da orla marítima, a protecção do meio marinho, as actividades piscatórias e turísticas e a investigação científica.

Ø  Apoio ao projecto de Extensão da Plataforma Continental: neste âmbito, os dois navios de capacidade oceânica levaram a cabo uma campanha de grande relevo nacional, entre 2005 e o corrente ano, com 1000 dias de mar, e a cobertura hidrográfica de uma área oceânica de 1,8 milhões de km2 (cerca de vinte vezes a área terrestre de Portugal); neste projecto, assinale-se igualmente a operação do ROV de grande profundidade pelo NRP "Almirante Gago Coutinho", decorrida em bancos oceânicos, entre 2008 e 2010. Este esforço permitiu que Portugal tivesse apresentado a sua proposta de alargamento da Plataforma Continental para além da Zona Económica Exclusiva perante as Nações Unidas, e a informação recolhida constitui um valioso património, concorrendo para a actualização cartográfica de vastas áreas costeiras e oceânicas, bem como para a investigação científica e um maior conhecimento dos recursos existentes no fundo do mar.

Ø  Apoio à comunidade científica: executando campanhas científicas da responsabilidade de universidades e de instituições civis ligadas à investigação do mar. Uma das campanhas realizadas correspondeu ao estudo multidisciplinar conduzido pela Universidade do Algarve, em 2006, tendo o NRP "D. Carlos I", executado, ao largo da costa algarvia, estações CTD, fiadas de ADCP e recolha de plâncton e de amostras de água.

Cooperação com a África Lusófona

A Marinha Portuguesa, através do Instituto Hidrográfico, tem cooperado com os PALOP nos domínios da hidrografia e da cartografia, seja através da manutenção da cartografia náutica destes países, como através de acções de formação. Contudo, e salvo algumas áreas portuárias, designadamente do Arquipélago de Cabo Verde (o Instituto efectuou diversos levantamentos, entre 2004 e 2009, nos principais portos de Cabo Verde no âmbito da colaboração técnica com este país), essa cartografia carece de actualização, baseando-se em informação hidrográfica adquirida entre os finais dos anos quarenta e início dos anos setenta pelas Missões Hidrográficas e Geodésicas Ultramarinas (sublinhe-se que o trabalho levado a cabo pelas Missões foi notável e vasto, só possível face a um elevado nível de perseverança, de empreendedorismo e de conhecimento técnico e científico).

Os navios hidrográficos de capacidade oceânica podem constituir um meio importante na cooperação nos domínios da hidrografia e da oceanografia, com reflexos positivos no desenvolvimento económico e científico, levando a cabo as seguintes actividades:

  • execução de levantamentos hidrográficos, contribuindo para a segurança da navegação, a actualização da cobertura cartográfica e a delimitação de espaços marítimos;
  • execução de campanhas científicas, contribuindo para o conhecimento do mar, designadamente no que respeita aos seus processos dinâmicos, à sua interacção com a orla costeira e aos seus recursos;
  • Formação e treino nas áreas da oceanografia, da navegação e da hidrografia.

Considerações Finais

Os navios hidrográficos desempenham um papel primordial e insubstituível no conhecimento do mar, o qual é fundamental para a segurança da navegação, a gestão sustentada e adequada dos recursos marinhos (só é possível gerir bem o que se conhece), a protecção ambiental, e a defesa. Este conhecimento, que apenas pode ser obtido metodologicamente e de forma continuada e sistemática, constitui uma condição necessária para que os países assumam o seu carácter marítimo e se projectem no mar.

Os navios hidrográficos representam um meio de grande potencial para a cooperação com a África Lusófona, podendo desenvolver uma acção relevante para o conhecimento dos seus espaços marítimos, concorrendo assim para o desenvolvimento económico e o estreitamento das relações na Lusofonia.

 

APOIANTES do IV CONGRESSO - 2016